Fim da escala 6x1 pode exigir até 23% mais motoristas e elevar custos do transporte coletivo, aponta estudo
Mudança para o regime 5x2 demandaria reestruturação operacional das empresas, renegociação de contratos e ampliação de subsídios, segundo apresentação realizada em evento da Fetpesp
Publicado em 18/06/2026 por Alexandre Asquini

A possível extinção da escala 6x1 e sua substituição por um regime de trabalho 5x2 poderá provocar impactos significativos sobre a operação do transporte coletivo de passageiros no Brasil. A avaliação foi apresentada pelo engenheiro naval Wan Yu Chii, diretor de Negócios da WPlex Software, durante a palestra “Fim da Escala 6x1 – Impactos, Desafios e Perspectivas para o Transporte de Passageiros”, realizada na manhã desta quarta-feira, 17 de junho, em evento híbrido promovido pela Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo (Fetpesp).
Com base em simulações matemáticas e estudos desenvolvidos pela empresa a partir de dados operacionais de clientes do setor, Wan Yu Chii afirmou que a adoção da escala 5x2 poderá exigir um aumento entre 20% e 23% no número de motoristas necessários para manter a oferta atual de serviços. Segundo ele, empresas de menor porte tendem a ser mais afetadas devido à menor flexibilidade para organizar as escalas.
O executivo explicou que operadores com frotas menores dispõem de menos possibilidades para distribuir os trabalhadores entre diferentes sequências de folgas, o que reduz a eficiência da programação e amplia proporcionalmente a necessidade de contratação de pessoal.
“O aumento da quantidade de motoristas é um dos impactos mais relevantes identificados. Além da questão financeira, existe uma preocupação concreta sobre a disponibilidade de profissionais para preencher essas vagas”, observou.
O estudo apresentado simulou uma empresa de porte médio com 100 ônibus operacionais e concluiu que a necessidade de ampliação do quadro funcional seria acompanhada por um aumento dos custos de pessoal. Dependendo da interpretação jurídica sobre a aplicação da futura legislação, a elevação dos custos com motoristas poderia variar entre 14% e 19%.
Dúvidas jurídicas
Um dos pontos destacados na apresentação foi a incerteza em torno da compatibilização da nova jornada semanal de 40 horas com os acordos coletivos atualmente vigentes no setor.
Segundo Wan Yu Chii, muitas convenções coletivas estabelecem limite diário de 7 horas e 20 minutos de trabalho. O executivo afirmou que levantamento realizado pela WPlex em cerca de 100 convenções coletivas identificou que esse limite diário está amplamente consolidado no setor.
Caso esse limite permaneça válido, a redução da jornada semanal poderá gerar horas não aproveitadas pelas empresas. Por outro lado, se prevalecer o entendimento de que a nova legislação permite jornadas diárias de até oito horas, os impactos operacionais e financeiros seriam diferentes. Na avaliação do executivo, essa questão tende a ser objeto de debates jurídicos e negociações coletivas nos próximos meses.
Redução da renda dos motoristas
Outro resultado apontado pelo estudo é que a mudança de regime pode não representar aumento da remuneração efetiva dos trabalhadores. Isso porque a redução do número de dias trabalhados no mês diminuiria o volume de horas extras e de benefícios vinculados à presença, como vales-refeição.
Nas simulações apresentadas, a renda total dos motoristas poderia registrar redução entre 4% e 8%, mesmo com a manutenção do salário-base.
Riscos operacionais
O diretor da WPlex alertou ainda para possíveis dificuldades na implementação do novo modelo. Entre os principais riscos citados estão a escassez de motoristas, o aumento do custo das horas extras, a perda de confiabilidade da operação e o crescimento de passivos trabalhistas.
Wan Yu Chii afirma que a dificuldade de encontrar profissionais pode se tornar um desafio tão relevante quanto o próprio aumento dos custos operacionais, especialmente em um cenário de expansão simultânea da demanda por mão de obra em diversas empresas do setor.
Segundo ele, a transição exigirá forte capacidade de adaptação das empresas, incluindo revisões frequentes de programação e escalas, processo que comparou aos ajustes operacionais realizados durante a pandemia de Covid-19.
“O desafio não será apenas contratar mais pessoas. Será necessário repensar toda a lógica de planejamento e gestão das escalas”, afirmou.
Durante a apresentação, Wan Yu Chii destacou que a mudança também aumentaria significativamente a complexidade da gestão das escalas. Segundo ele, enquanto os modelos atualmente utilizados no transporte coletivo trabalham com um conjunto relativamente limitado de sequências de folga, a adoção da escala 5x2 poderá exigir dezenas de combinações diferentes para equilibrar a distribuição dos descansos e minimizar a necessidade de pessoal adicional. Dependendo da modelagem adotada, o número de motoristas necessários pode variar significativamente
Impactos além das empresas
A apresentação também abordou possíveis efeitos sobre a demanda do transporte coletivo. Caso outros setores da economia reduzam suas atividades aos sábados em razão da nova jornada, parte dos deslocamentos poderá migrar para os dias úteis, aumentando a concentração de passageiros e exigindo reforços na oferta de viagens.
Diante desse cenário, Wan Yu Chii defendeu que empresas operadoras, entidades setoriais e órgãos gestores iniciem desde já estudos e simulações para avaliar alternativas operacionais e financeiras.
O palestrante observou ainda que os efeitos da mudança não se restringiriam às operadoras. Na avaliação dele, a necessidade de ampliar quadros de pessoal e absorver novos custos poderá exigir revisões contratuais, reequilíbrios econômico-financeiros e ampliação dos subsídios públicos destinados ao transporte coletivo. Segundo ele, uma das principais incertezas para o setor é como os órgãos gestores reagirão ao eventual aumento dos custos operacionais, seja por meio de compensações financeiras, revisão da oferta ou outras medidas de ajuste.
Diante desse cenário, Wan Yu Chii defendeu que empresas operadoras, entidades setoriais e órgãos gestores iniciem desde já estudos e simulações para avaliar alternativas operacionais e financeiras. Segundo ele, o período que antecede uma eventual mudança deverá ser utilizado para testar diferentes modelos de escala, avaliar impactos sobre a oferta de serviços e negociar eventuais ajustes contratuais e de financiamento do sistema.
Para ele, a discussão sobre o fim da escala 6x1 deixou de ser uma hipótese distante e passou a representar um cenário concreto que exige planejamento antecipado. A adoção da escala 5x2, concluiu, poderá representar uma das mais profundas transformações na gestão operacional do transporte coletivo brasileiro nas últimas décadas.
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Site: www.wplex.com.br
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